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Wednesday, April 11, 2018

Aos jovens adultos cujos pais (e parentes) são um perigo no Facebook




Quem tem filhos tem cadilhos até depois de morrer, lá diz o povo. O maior medo de qualquer pai ou mãe (em qualquer época, de qualquer idade e com filhos pequenos ou graúdos) é que as suas crias se metam em sarilhos.

Por sarilhos podemos entender coisas graves vulgo estragarem a sua vida, andarem na má vida ou mesmo darem cabo da dita cuja, mas também coisas mais pequenas como fazerem más opções e tornarem-se a vergonhaça da família (sendo que a noção daquilo que é ou não "vergonha" varia cada vez mais consoante as famílias: para uma, dotada de bom senso, vergonha é a filha concorrer à Casa dos Segredos; para outras, de outra qualidade, vergonha é a sua filha concorrer à Casa dos Segredos e perder).




Porém, na era dos social media  (e especialmente do Facebook, rede social de eleição das pessoas da geração dos nossos pais e avós) muitos filhos têm igualmente cadilhos. Ou mais concretamente, o cadilho de verem prolongar-se, para a idade adulta, aquele complexo da adolescência que é ter vergonha dos pais (nunca o tive, felizmente - fui abençoada com pais que tinham tanto estilo como bom senso, e que só me envergonhavam se ameaçassem dar-me uma lamparina ali mesmo quando tinha os meus momentos de parvalheira).




Aliás, quase podemos dividir a actual população de jovens adultos em três universos: 

1- O universo privilegiado dos sortudos cujos pais não têm Facebook (ou têm mas usam-no como qualquer pessoa normal e escorreita);

2-  O universo dos que têm pais que só partilham tolices mas como é tal pai, tal filho a vergonha não lhes assiste; 

3- E por fim, o terceiro universo: o dos filhos que, sendo dotados de noção do apropriado, sofrem com progenitores que não sabem estar nos social media

Para esses, coitados, existe ainda o problema da proporção directa entre não saber estar no Facebook e adorar passar lá tempo. Enunciemos a fórmulaquanto menos uma pessoa sabe usar o Facebook, mais gosta de perder tempo com ele, a debitar disparates - ou a passá-los adiante.





Eis alguns exemplos que fazem corar filhos, parentes e amigos comuns (por contágio/ vergonha alheia***):

***Nota bene: como os tipos de causadores de vexames eram tantos, optei, conforme o post se ia formando, por alargar as hipóteses incluindo oficialmente tias, padrinhos, avós ou qualquer parente mais velho mais ou menos afastado, mas que se mantém como amigo facebookiano por boa educação. 



1- A mãe recém divorciada que, sendo até então uma senhora normal, não aguenta a solidão/ desgosto e pira de tanta carência, perdendo toda a compostura.

 Aflita para - conforme os seus ideais românticos- vingar-se do ex, casar de novo, "viver a vida" com as grandes emoções que não teve na juventude ou refazer a vida lá à sua maneira, conquistar o Carlão ou o "doutor bem posto" dos seus sonhos de rapariga...transforma-se numa cougar ou numa namoradeira desesperada. 
E pimba:  faz uma tatuagem duvidosa que dá imenso nas vistas, inscreve-se num ginásio/estúdio de dança manhoso, arranja um grupo de "migas" com muito mau ar e reputação pior para sair até às tantas... e não contente com isso dá parte ao mundo desse seu "renascer". Ou seja, desata a publicar selfies de gosto questionável, a mandar "beijos de luz" às pobres pessoas que não lhe fizeram mal nenhum, a partilhar "frases de amor" e memes de fazer corar um carroceiro retirados das páginas medonhas de que já temos falado-  e o que é pior, a comentar em público nesses antros, sem fazer caso dos perigos nem do ridículo a que se expõe. Enfim, faz do Facebook um Tinder - mesmo que 
(valha-nos Deus) a senhora seja tão prá frentex que também já tenha descoberto as maravilhas do Tinder que apesar de arriscado é mais discreto, mas deixemos esse para outro dia.





2- A mãe, tia ou avó dada a crendices (ou pior, religiosa mas sem a devida orientação de um sacerdote... ou ainda, que vira orelhas moucas ao que lhe diz o sacerdote) que faz do seu mural de Facebook oratório, confessionário, centro espírita, poço dos desejos, terreiro de umbanda, centro de meditação, catequese, grupo de auto ajuda, escola dominical, aula de estudos bíblicos, veículo para as suas "caridades" virtuais, centro de reiki e consultório de tarot/astrologia - ou tudo isso junto.

 Antes das Redes Sociais, esta era uma daquelas senhoras mais ou menos inofensivas que ao Domingo ia à Missa mas nos outros dias consultava à socapa a cartomante, ia com as amigas do rancho folclórico à "mulher de virtude" para tirar o mau olhado e coleccionava todas as revistinhas brasileiras "de signos"- uma ecumenista ou universalista com grande sede espiritual, portanto, mas em versão ingénua. 

O pior é que agora - maravilhada com a abundância inesgotável de citações fofinhas do Papa Francisco (quando não é do Dalai Lama, do Paulo Coelho, do Osho ou do Chico Xavier, que de resto ela nem nunca ouviu falar mas soa tão profundo) de imagens de Nossa Senhora de Fátima com florzinhas e anjinhos a fazer pisca-pisca, de versículos Bíblicos em versão evangélica redigidos em português do Brasil com lindos fundos de pores-do-sol, de memes do tipo «quem ama Jesus, digita (sic)"AMÉM"»  e de pedidos de "Like" para meninos doentes  , etc, tudo coisas tão bonitas que ela julga serem grande novidade -  a pobre não aguenta tanta beatitude. 

Sente-se a  subir aos céus (ou cheia de luz e boas energias, vá) e acha que tem de espalhar a Boa Nova.

 E então entra em modo Testemunha de Jeová, mas em versão tudo ao molho e fé em Deus, que o que importa é ter amor no coração.

 E - sem pensar que até o Todo Tolerante Papa Francisco a excomungava logo, ferendae sententiae se visse tal rebaldaria - vai de bombardear os vizinhos, família e quem mais tenha o azar de estar entre os seus amigos facebookianos não só com actualizações constantes no mural, mas em estilo marketing directo: vulgo, espalhando via messenger aquelas orações supersticiosas em corrente "manda para 10 amigos em 10 minutos e Nossa Senhora vai realizar um milagre antes da meia noite" ou pior, "envia para 50 pessoas para S. Judas Tadeu realizar um desejo impossível- quem quebrar a corrente vai ter má sorte o ano inteiro". 

O que vale é que tanto as heresias como as ameaças e as boas energias caem em saco roto:  Nossa Senhora tem mais que fazer,  S. Judas não usa o Facebook e os amigos acham que seria cruel dizer alguma coisa a uma senhora dessa idade, limitando-se a deixar de lhe seguir o mural e a refundir-lhe as mensagens para a caixa de arquivo.



3 - O tio tarado que só "posta" brejeirices




 Há um assim em quase todas as famílias, em várias versões (o aldeão que tem a mania que está possuído pelo espírito do Quim Barreiros, o suburbano com a mania que é bad boy, o  cavalheiro degenerado que até veio de uma linhagem respeitável mas sempre foi a ovelha ranhosa do clã, o rapaz que era normal mas voltou do Ultramar com um parafuso solto, o artista incompreendido que fumou demasiadas ganzas nos anos 70, fez pior nos anos 80 e nunca teve conserto, etc) e com várias desculpas: ou porque sempre foi o espalha brasas, o ganda maluco a quem toda a gente dá desconto, ou porque é mesmo um grosseirão e ninguém se atreve a pô-lo no lugar, ou porque bebe, ou porque bebia, ou porque não percebeu que certas graçolas não caem bem nem aos novos, quanto mais em quem tem mais que idade para ter juízo. 

E pronto, com piores ou menos más intenções a criatura não tem mesmo noção e nem sequer procura disfarçar; dir-se-ia que faz gosto em desrespeitar e chocar os outros.  Esquecendo que há piadas de caserna que se dizem pelos cantos, numa roda de homens,  mas não se trazem para casa, esta alminha segue tudo quanto é página de anedotas ordinárias (partilhando sempre as piores) acompanha tudo quanto é página de frases badalhocas e/ou de mulheres seminuas, comentando em sórdido detalhe as "abundâncias" de serigaitas com idade para serem suas filhas (quando não passa adiante as imagens para o seu próprio mural, esquecendo que as netas, filhas e sobrinhas estão a ver aquela pouca vergonha). Isto quando não comenta de forma inconveniente ou malcriada as publicações dos próprios parentes e amigos, com direito a palavrões e tudo. É aquele que toda a gente evita convidar para reuniões de família ou, se não consegue mesmo banir de todo, tenta mandar embora antes que os ânimos - e os vapores do álcool- subam muito. Porém, no Facebook é mais complicado dar a volta a isso... e das duas uma: ou se bloqueia o malcriado, ou alguém perde as estribeiras, diz-lhe das boas e é uma barraca pegada. Com todo o mundo a ler, a rir e a abanar a cabeça. Vergognazza.


4- O tio Felisberto desgraçado




Este é uma mistura entre o Xoné da Bia, a Pequena Feiticeira (pois não acerta uma) o Alan Harper de Two and a Half Men, o  Calimero e a Gossip Girl.

 É um azarado que nunca tomou responsabilidade pelos seus problemas e faz muito pouco para os encarar de frente: na verdade, acha de certa maneira que o mundo lhe deve alguma coisa. E com isso, anda constantemente metido em assados financeiros, profissionais e conjugais - assados que, sem dignidade nenhuma e em grande detalhe,  debita no Facebook a toda a hora. Em tempo real. O seu mural mais parece o reality show do Triste Palhaço Pobre. Foi despedido? Ainda não esvaziou a secretária e já postou uma selfie lamentável a fazer carinha de choro, protestando contra a injustiça e falando mal dos ex colegas (não lhe ocorre que passar muito tempo no Facebook, em horário de trabalho, às tantas contribuiu para o dispensarem). Se bateu com o carro e o mandou para a sucata, ou se a mulher fugiu com o padeiro, o mundo tem de saber ainda antes de o reboque chegar e de o pão ter arrefecido. E assim por diante.

 Que enfim, os desaires podem nem ser todos, ou inteiramente, culpa sua...como ele é um xoné inofensivo que faz sobretudo mal a si próprio, as pessoas vão tendo pena, deixando-o na categoria de xoninhas, "pobre diabo" ou "alma de Deus"... e vão remoendo a vergonha alheia por falta de coragem para o pôr no sítio com uma resposta bem torta!

Mas eventualmente a solidariedade (e pachorra) da parentela acaba por dar lugar à irritação, porque ele não se fica pela má notícia inicial e continua a esmiuçar: seja para tentar obter algum tipo de ajuda (ou para se "encostar" em modo sanguessuga, o que certos espécimes deste género fazem sem grande escrúpulo) seja por necessidade de atenção ou porque prefere gastar tempo no Facebook em vez de ir à luta como os outros mortais, ou ainda para criar sentimentos de culpa em familiares e amigos por não irem em seu socorro (ou antes, consertar as suas asneiras) pela enésima vez, cada actualização é um choradinho pior que um Fado daqueles trágico-cómicos.

 E é claro que não há santo que aguente: primeiro, porque o que é demais é moléstia; más fases todos temos e de aflições ninguém está livre, mas constantemente? Segundo, porque cada um tem os seus problemas e pessoas adultas e equilibradas não vão a público , uma e outra vez, esperar que lhos resolvam; e terceiro porque ninguém gosta de fazer figura de ter parentes miseráveis (ou pior, de ser injustamente acusado de não ajudar parentes em dificuldades).
 Nota: o Felisberto Desgraçado também existe na versão feminina, mas os espécimes masculinos costumam dar mais nas vistas - talvez porque é estranho e raro ver um homem sem o mínimo de orgulho másculo e nível zero de testosterona.


5- A tia Bridget Jones




É uma versão do tio Felisberto desgraçado, mas o seu foco são os problemas amorosos. Também pode ser considerada uma variante um pouco mais jovem (mas mais batida no carrocel dos relacionamentos fugazes seguidos de par de patins) da mãe que vira cougar (ver nº1). Esta tia entradota, mas com a mania que nenhum homem lhe resiste (que também pode ser uma prima dos pais, ou outro parentesco qualquer)  já está na meia idade há algum tempo e toda a vida fez disparates sem aprender com os erros.

 Passou os seus vinte e os seus trinta a coleccionar amores não correspondidos, affairs em que invariavelmente foi usada e deitada fora, dramas e pontapés no traseiro. E a ser avisada  pelas primas e amigas, again and again, que a ser tão serigaita, tão desesperada e tão oferecida nunca arranjaria marido.

No entanto,  é óbvio que ela não ligou nenhuma aos conselhos - ou foi dizendo que sim senhora, mas continuando exactamente na mesma atrás de cavalheiros muito fora do seu alcance que nunca a poderiam levar a sério, ou de homens casados/comprometidos, ou de mariolas que simplesmente não prestavam...isto quando não estragava as poucas relações de jeito que lhe apareceram por ser tão carente, tão doida ou por simplesmente só achar piada a quem a tratava mal. Como diriam os brasileiros, só Jesus na causa!

Já era assim antes das redes sociais serem inventadas e quando finalmente surgiram Facebook, Instagram e Tinder, ela (em vez de tentar ser um bocado mais discreta) arranjou maneira de espalhar a sua má reputação à escala global, achando que desta vez, com acesso a conhecer mais gente, é que ia achar o Príncipe Encantado. 

Claro que dá sempre asneira e as suas actualizações seguem invariavelmente o mesmo padrão:

1- frases de amor (quando anda iludida) 2 - actualização de estado civil com juras de amor eterno tipo "o que Deus uniu o homem não separa" (nas raras vezes que algum incauto assume uma curta relação com ela) 3- Memes de rompimento trágicos ou sarcásticos, estilo "what goes around come around"  e "os homens são todos uns meninos e uns cobardes!" (logo que dá para o torto e descobre que o seu último caso foi só de uma noite ou que o "namorado" casado nunca se vai divorciar para ficar com ela) 4- recadinhos passivo-agressivos do género "solteira, leve e soltinha como o arroz" ou "solteira sim, sozinha nunca" (quando se conforma com a sua sorte ou está disponível para tentar de novo). É a vergonha da família e um exemplo péssimo para as suas primas ou sobrinhas mais novas.


6- A tia raivosa





Esta tia zangada com o mundo pode vir em várias embalagens: a beata da aldeia, a mulher de carreira e/ou intelectual bem sucedida mas com sérias questões emocionais, a revolucionária feminazi que ainda julga que estamos nos anos 70 e não perde uma festa do Avante mas vai sempre com cara de tacho (sem festejar, a mandar vir contra tudo e a estragar a revolução aos camaradas) a dona de casa mandona cujo entretém é fazer a vida dos parentes num inferno, e por aí fora. 

O que nunca lhe faltam são cinco ingredientes: feitio de generala, tempo livre de sobra, mania que sabe tudo, nervos desarranjados, falta de filtro para saber quando deve estar calada e que a roupa suja não se lava na rua e finalmente,  ausência de marido que lhe refreie os destemperos (ou porque é solteirona/separada/viúva, ou porque o único que se prontificou a casar com ela é um pau mandado tão banana, tão emasculado e tão xoninhas que é como se não existisse). Conforme o tipo de tia raivosa, as suas raivas e ódios de estimação têm alvos diferentes: adversários políticos, colegas ou rivais na sua área de especialidade que lhe façam sombra, qualquer coisa que ela entenda como injustiça profissional ou social... ou familiares com quem tenha alguma querela de heranças ou coisa do género. É o tipo de pessoa que vai para as redes sociais publicitar que ela é que cuida da avó entrevada enquanto os primos não querem saber (a ver se os primos lhe respondem e acaba tudo numa grande peixeirada) ou que na Quermesse da Paróquia só ela é que trabalha, mas a Ermelinda da mercearia é que fica com os louros porque forneceu os enchidos para as rifas. Nem água benta lhe vale e o melhor é
 ignorar-lhe as postagens sem ai nem ui, não vá ela inventar uma encrenca qualquer.


7- Os primos e tios... sem filtro



Nesta categoria cabem vários flagelos facebookiano-familiares, que têm em comum achar que o Facebook é um tamagochi: ou seja, julgam que se não partilharem alguma coisa todos os dias, nem que seja a maior tonteria ou algo de embaraçoso, a sua conta de Facebook expira. 

Da mãe babada e sem noção que, à falta de algo para dizer, escreve um daqueles posts com fundo colorido " O que mais peço é que Deus proteja os meus filhos" (o que leva a família a ficar preocupada e a perguntar-lhe que raio aconteceu de grave) ou publica um retrato desfavorecedor/humilhante dos pobres coitados em pequenos só porque sim, ao padrinho desocupado que decide avisar o mundo de que está a chover a potes- quando todos os seus amigos virtuais moram na mesma zona e estão carecas de saber -  passando pela prima afastada que decide testar o telemóvel novo retratando os sobrinhos a causar um chavascal na mesa do lanche posta à pressa, devorando arroz doce sem modos nenhuns (ou qualquer outro retrato de família pouco lisonjeiro na praia, em festas de anos, etc) à boa e velha lavagem de roupa suja, passando por memes de futebol com palavrões.

 Há ainda os que decidem ser mais radicais e, se vão parar ao hospital - ou por tédio, ou para atrair visitas, ou no firme propósito de deixar os outros maldispostos - se entretêm a contar com detalhe que tiveram um sangramento num local que não convém dizer, ou que estão internados num serviço que é embaraçoso mencionar, ou ainda a mostrar selfies das suturas (blhec!!!). Não esqueçamos ainda os misteriosos que de tempos a tempos, anunciam, com ar compungido e pomposo, que não podem receber mensagens privadas ou que vão deixar de ter Facebook, só a ver a reacção que recebem...mas apagar a conta que é bom, nada, e dali a dias lá estão eles de novo!




É claro que- como em tudo na vida - a presença digital destes pais (ou figuras parentais) depende de várias condicionantes: do seu nível cultural (ressalvando que conheço não poucas pessoas com formação superior que partilham os piores despautérios e outras pouco instruídas que são discretas) do meio social em que cresceram e/ou se movem (ou seja, companhias) dos gostos individuais, passatempos, interesses, envolvimento político/desportivo (ou não) etc, da personalidade (uma pessoa espalha brasas tende a ser mais expansiva também no mundo virtual, uma que seja tímida nem tanto)...e por aí fora. 

No entanto, há dois factores que são determinantes: 

- Primeiro, o bom senso, em que podemos incluir o sentido do apropriado e o respeito pelos outros (que transcendem outros traços de carácter, ultrapassam a demografia e andam invariavelmente de mãos dadas com a discrição); 

-  Segundo, o conhecimento dos objectivos, modo de uso e utilidade de cada rede social,  dos seus perigos e vantagens. Para que serve ao certo o Facebook?  E como funciona? Que actualizações são favoráveis? Quanto, o quê e quando é sensato partilhar?




E se calhar é aí que a culpa não morre solteira, que muitos filhos ( e quem diz filhos, diz netos, afilhados ou sobrinhos)   falham por negligência: toda a vida ouvi que primeiro os pais ensinam as crianças; mas que cabe aos filhos, depois de crescidos, ensinar algumas coisas aos autores dos seus dias. Ou actualizá-los quanto às novidades que vão aparecendo. 

Se há razões legítimas para achar que os posts/partilhas/ interacções de familiares mais velhos e menos habituados estas andanças causam embaraços de qualquer ordem, há que sentar-se com o "publicador compulsivo" e conversar francamente sobre o assunto - pessoalmente, cara a cara, com delicadeza mas firmeza. Para evitar "barracos" maiores, resista-se (salvo em caso de vida ou de morte após muitos avisos baldados) à tentação de dar o sermão comentando as publicações barraqueiras em causa. A pessoa até pode estar a fazer figura de ursa em público alegremente, mas morrerá de vergonha se lhe apontarem o facto em público.




 Convém então falar com calma e franqueza: primeiro, elucidando sobre o propósito do Facebook. Nomeadamente, explicando que ele não serve para publicar conteúdo porque sim. 

Antes pelo contrário, já que até foi mais inventado para receber conteúdo: para estar em contacto com os amigos (principalmente com os que vivem longe)  e comentar as coisas deles, para acompanhar páginas dedicadas a temas do nosso interesse, para ler e guardar notícias, artigos, imagens ou vídeos engraçados e se quisermos, enviar essas coisas a quem possa gostar delas via mensagem privada, ou marcando a pessoa em causa nos comentários. 




Igualmente, será boa ideia frisar que a conta no Facebook não expira por falta de actualizações constantes: é possível estar activo diariamente no Facebook e no entanto, passar dias a fio sem acrescentar nada de seu. Aos social media também se aplica aquela máxima sensata da vida real: quem não tem nada de jeito a acrescentar, ganha mais se ficar calado.

Pode mesmo realçar-se que as publicações demasiado frequentes, ou repetitivas (além de perderem impacto e cansarem os amigos, gerando menos interacção ou seja, menos likes e comentários) arriscam ser confundidas com SPAM e "censuradas" pelo próprio Facebook.




 Segundo, explicando que a engenhoca tem uma coisa útil chamada definições de privacidade. Afinal,  há coisas que convém não publicar nem comentar em caso algum, mas há outras que não trazem mal ao mundo se forem partilhadas só com certos amigos - seja deixando as coisas mais rocambolescas para mensagens privadas, criando um álbum secreto acessível apenas aos visados, escolhendo a audiência de cada postagem, associando-se a grupos dedicados a determinados temas ou mesmo ocultando as páginas públicas que se seguem, etc.

 Outra opção (muito útil para quem passa adiante tudo o que lhe parece giro, mesmo que não tenha grande interesse para mais ninguém) é mostrar o Pinterest ao (a) acumulador de imagens/memes/frases. 



O amigo Pinterest uma aplicação bem mais discreta, igualmente fácil de usar...e que não só entretém tanto ou mais que o FB como permite guardar essas coisinhas todas em pastas separadas por temas à escolha. Seja para publicar as melhores na hora certa via Facebook ou noutras redes, seja para as utilizar noutro contexto qualquer ou simplesmente, para não as perder (caso das receitas, por exemplo)- e o que é melhor, dá para interagir com utilizadores que gostam das mesmas coisas e para guardarem os conteúdos uns dos outros. É uma farturinha e ao menos não aborrece ninguém.

 Haveria outras dicas, como por exemplo  (se a pessoa é cada frase, cada asneira)
recomendar um corrector ortográfico, ou pelo menos dizer ao trapalhão ou trapalhona para prestar atenção aos avisos de erro - rasurados a encarnado - que até o próprio FB detecta. Nem toda a gente tem culpa de não escrever correctamente, mas estar online é uma excelente oportunidade para se corrigir e aprender, em vez de ganhar hábitos piores ainda!



Por fim, e mais importante: bem se diz que "a boca fala (ou os dedos teclam) daquilo que o coração está cheio". Quando um comportamento parece atípico, constrangedor, estranho, preocupante, repentino, desequilibrado ou inusitado nas redes sociais, muito provavelmente alguma coisa se passa na vida real. Tanta vontade de dar nas vistas (ou pelo menos, tanto tempo livre para desperdiçar no Facebook) podem indicar que esse familiar precisa de ajuda, de orientação ou simplesmente, de companhia. 

 Se a avó Católica anda a partilhar frases espíritas sem o saber, se calhar é melhor passar  tempo com ela, telefonar-lhe mais vezes (e pedir ajuda ao Padre da freguesia para a esclarecer, se calhar envolvendo-a nas actividades da Paróquia para que se sinta menos sozinha e possa empregar a sua veia solidária com proveito dos mais necessitados). 

Se a mãe ou a tia deram em serigaitas de meia idade, convém desviá-las para outros ambientes onde possam conhecer alguém decente -e na dúvida, sugerir que falem com uma terapeuta simpática que as ajude a lidar com o divórcio de maneira equilibrada.
 O tio conta as amarguras, lava a roupa suja da família em público ou lamenta-se das suas finanças para quem o quer ouvir? Pode ser um sinal de depressão, ou um pedido de socorro. O primo só partilha alarvidades, coisas chocantes ou embaraçosas? É melhor um dos homens da família ter uma conversa séria com ele, não só para o avisar quanto ao inapropriado da coisa como para perceber se algo de mais grave está por trás disso (alcoolismo, dívidas, crise profissional ou matrimonial, etc).

As redes sociais não devem - nem podem - substituir o bom e velho contacto humano. Muito menos quando se trata de família.

No entanto, há aqueles que não têm mesmo remédio e com quem - principalmente se são família bastante afastada - mais vale uma pessoa não se associar de todo  (pelo menos virtualmente e em público) seja para não se irritar, seja para não ficar na fama de ter tais ligações de nome ou de sangue. Como diria a sábia Nelly Dean, a governanta de O Monte dos Vendavais: "as pessoas podem ter muitos parentes, e de todos os feitios; se forem grosseiros ou mal educados, é só não nos darmos com eles e pronto". 

Saturday, March 31, 2018

Haja paciência: um Hospital muito "prá frentex"




Segundo a Revista Sábado, o Hospital de Cascais está a ser alvo de protestos por tentar impor aos seus funcionários, homens e mulheres, um código de vestuário discreto e normas que deviam ser básicas para quem está perto de doentes - como, por exemplo, evitar perfumes fortes.



Para mim, que não trabalhando numa área tão ...vá, solene como a da Saúde, todos os dias estou sujeita a standards de apresentação rigorosos q.b. (e acho isso naturalíssimo) é difícil de entender como é que estes médicos/enfermeiros/auxiliares/administrativos se sentem no direito de se indignar.

Que a alguns não lhes apeteça cumprir até percebo e nem me espanta nada (já lá vamos).


Porém, que o digam em voz alta, como se esperar um mínimo de sobriedade no local de trabalho fosse alguma coisa do outro mundo; que façam queixa, que isso vá parar à imprensa e que o próprio Sindicato dos Médicos da Zona Sul venha afirmar que tudo fará "para impedir que o Hospital de Cascais se transforme numa caserna militar"...já é muita relaxaria junta. Mas afinal o que é que querem?


                                        


Para fazer tanto escândalo, será que a ideia deste staff é....


...ir trabalhar assim?

                                


Ou assim?

                                                  

Ou ainda...assim?

                               


Agora a sério, e falando da realidade que conheço melhor.


A maioria das pessoas que trabalha na indústria de moda, obviamente uma área profissional bem mais criativa do que a Saúde, obedece a dress codes (quem nunca leu/viu "O Diabo veste Prada"? O ambiente na vida real é um bocado esse, garanto). 

Quando não existe um uniforme e apenas um código de vestuário, o grau de "liberdade de expressão" varia de acordo com o segmento (o mercado de luxo pede geralmente visuais sofisticados e clássicos; marcas trendy ou alternativas permitem alguma rebeldia embora muitas sejam, por exemplo, rigorosas com as cores autorizadas) e consoante se trabalha em head office (editores, buyersdesigners, online stylists...) ou em contacto com o público (vendedores, gerentes de loja, personal shoppers residentes, vitrinistas...). Mas regras de imagem há sempre.


Staff de cosmética Gucci: dress code típico para profissionais de retalho de luxo

                       
E para os profissionais de moda que estejam em contacto com o público, esses dress codes não andam longe daquele que é proposto agora pelo Hospital de Cascais. Ou de qualquer empresa onde vigorem normas de apresentação dentro do business/corporate dress.

As regras a cumprir em lojas de departamento de luxo, por exemplo, visam não só as fatiotas permitidas, mas detalhes como a espessura dos collants (quase sempre 15 den, preto ou cor da pele conforme a casa) o cabelo (que tem de estar penteado com elegância, sempre em cores "naturais e normais", afastado do rosto e preso se for comprido) o tipo de calçado (é raro serem autorizados sapatos de fivela, botas, sandálias ou sling backs) a altura dos saltos (se possível, 5 cm ou mais) o comprimento das saias (pelo joelho ou abaixo e quase sempre, saia lápis) e ausência de jóias espampanantes, nail art, piercings ou tatuagens visíveis. 
E quem não cumprir é mandado para casa sem mais aquelas. As poucas excepções têm a ver com símbolos religiosos (uso de turbantes, hijabs, crucifixos e por aí). 


                                       


O objectivo disso é garantir um visual neutro, profissional e elegante, que não seja fonte de distracções ou de mal entendidos.

Isso pode parecer limitativo, mas tem razão de ser: quanto mais liberdade, maior a margem de erro. Mesmo em ambientes onde as pessoas têm obrigação de saber o que é adequado e favorece, há sempre quem careça de bom senso e se lembre de aparecer demasiado casual, demasiado sexy e por aí fora. Havendo certos padrões, certas normas a que todos estão sujeitos, está garantida a igualdade (evitando-se questões do tipo "se fulana pode usar mini saia, porque é que eu não posso?") e é mais certo o look de toda a equipa estar de acordo com a imagem, valores e missão da empresa. De mais a mais, lida-se com diversos tipo de pessoas, com sensibilidades, backgrounds e opiniões diferentes: num momento atende-se uma cantora pop ou o jogador de futebol, no outro o Príncipe árabe ou a velhinha aristocrática. Uns lidarão bem com piercings ou decotes, outros nem por isso. 

                         
                                         Uniformes da casa Van Cleef &Arpels


Mas falemos de outra área ainda mais corriqueira: a Estética.
 

Claro que sabemos que muitas cabeleireiras, esteticistas e manicuras não cumprem o que lhes foi ensinado nas escolas (dependendo muito da casa para que trabalham) mas é sabido que regras como "consumir drops de menta nos intervalos e evitar perfumes intensos" de modo a não incomodar a clientela com quem terão grande proximidade física, são batidas à exaustão. E tenho conhecido salões de cabeleireiro em que, embora a profissão exija roupa confortável, são de rigueur as t-shirts e calças pretas - jeans só são tolerados se forem de um denim muito escuro.



                                        
                                                   Staff dos salões de cabeleireiro Tony& Guy- Kwait


Que será então num hospital, onde as pessoas esperam um ambiente calmo e de confiança, e não o mesmo que se encontra "na noite" !

De mais a mais, basta, por exemplo, olhar para a história da enfermagem (quero dizer, depois de Florence Nightingale) para lembrar que este foi um campo em que se batalhou muito por uma imagem de respeitabilidade, criando-se por isso uma certa tradição de grande rigor no vestuário de modo a acautelar não só aspectos práticos como a higiene e o conforto, mas também a dignidade das candidatas a enfermeiras.

Qualquer enfermeira que me leia saberá como o treino era muito exigente, muitas vezes num regime de internato quase religioso (ou vá lá, concedamos - militar). Nas escolas inglesas, a "matron" era uma autêntica autoridade que tanto exigia na medida exacta das dobras dos lençóis ou na precisão ao ligar uma ferida, como na posição do toucado, no comprimento milimétrico da saia ou na postura correcta das suas pupilas. Muitas escolas de enfermagem eram verdadeiras finishing schools para as raparigas de classe trabalhadora ou média que aspiravam a uma profissão de futuro, que lhes abrisse novos horizontes, sem beliscar a sua reputação de "meninas sérias".


                           


Ora, embora os tempos tenham mudado e já não exista uma necessidade óbvia de defender a honra de enfermeiras, enfermeiros, doutores e seus companheiros contra ideias feitas, a verdade é que o uniforme (ou a bata, e o que vem com ela) deve convidar ao respeito e passar uma sensação de seriedade, de segurança. Em alemão, por exemplo, a palavra para enfermeira ainda é "Krankenschwester" - irmã dos doentes.

Obviamente uma pessoa vestir assim ou assado, tatuar-se ou não, ou o que faz na sua vida privada (desde que esta se mantenha muitíssimo privada, bem entendido) não diz do seu talento, habilitações ou paciência para cuidar de pacientes.
Porém, o simples contacto com os utentes que o exercício do ofício requer deveria ditar as normas de cada um. E não é preciso pensar muito para perceber que o que é "demasiado sexy" , garrido, rebelde, enervante para os olhos ou possa dar a ilusão de não estar limpo (ou de ser difícil de limpar) é contraproducente para quem está a tratar-se e para os familiares que acompanhem o doente. As pessoas fazem associações de ideias, gostemos ou não.

                                                  
Há lugares para exibir as tatuagens e mini saias, e lugares para as esconder. A última coisa que um médico, cheio de pressa para ver uma fila de dez doentes, precisa... é de um velhinho da aldeia a berrar que não quer ser atendido por um sótor com dragões nos braços e alargadores de orelhas. 


E convém que a médica de serviço não tenha um Carlão acidentado do tuning a
 espreitar-lhe pelo decote e a fazer trocadilhos inapropriados; ou que a enfermeira, que devia ser o anjo velando por aquela gente toda, não ouça comentários menos simpáticos da esposa do Senhor Feliciano, que teve um enfarte, por se apresentar como uma concorrente da Casa dos Segredos mascarada para o Halloween.


                                       

No entanto, não posso dizer que tanto a necessidade de o dito Hospital dar um "basta" nos exageros, como o sururu que se seguiu, me surpreendam:
sem querer generalizar nem ofender a maioria das pessoas que sabe estar com elegância e seriedade, infelizmente tenho conhecido casos de profissionais de saúde, maioritariamente mulheres (e vá-se lá saber porquê, não tão poucas como isso) que parecem fazer questão de causar embaraços à classe tanto na forma como se vestem como no comportamento em público (nomeadamente virtual).

Não atino com a relação entre tantos exemplos de ousadia (ou mau gosto) e o campo em que trabalham. Talvez o facto de lidarem com a anatomia humana e de ouvirem de tudo um pouco as torne pessoas de "mente aberta" - além do que seria conveniente? Terá a ver com algum facilitismo na admissão aos cursos superiores e com um certo descaso dos costumes de moralidade e seriedade atrás descritos que, pelo menos oficialmente, norteavam as regras de conduta em clínicas e hospitais?


                                                   
                                                Perfil de uma enfermeira no Tinder, a embaraçar as colegas


A verdade é que tenho visto coisas de bradar, que superam os enredos daquelas séries e novelas ranhosas de "médicos e enfermeiros" onde o pessoal hospitalar não faz mais nada senão urdir affairs, escândalos e dramas amorosos nos turnos da noite (programas que me deixam sempre a pensar que a ser assim na realidade... uma pessoa, se tem o azar de adoecer, está entregue a gente muito doida).


                                    

De uma especialista com consultório aberto que teimou em posar como veio ao mundo e divulgar o resultado alegremente no Facebook, sem pensar no impacto que isso teria nos seus pacientes (imagino as piadinhas de alguma clientela, e muita esposa a proibir os maridos de lá porem os pés) a enfermeiras que fazem gala de vestir como strippers tatuadas e que reclamaram com os hospitais/clínicas onde trabalhavam porque foram proibidas de usar unhas de gel- por motivos de higiene que deviam ser óbvios a quem trata de pensos, ligaduras e coisas assim - passando pela divulgação descarada nas redes sociais de comportamentos promíscuos (que a existirem, deviam ao menos ser guardados para a intimidade da pessoa e não ficarem acessíveis a quem quer ver, incluindo colegas e superiores) já me chegou de tudo um pouco.

                            


Há certas "liberdades criativas", opções de vida, formas de estar e visuais que devem ser deixados para as horas vagas - e há determinadas condutas que certas empresas ou organizações não toleram nem sequer nas horas vagas. Na era dos social media (em que tudo se sabe) são cada vez mais os exemplos de pessoas que foram dispensadas de cargos por, mesmo fora das horas de expediente, se darem a actividades, comportamentos ou discursos que vão contra a imagem e os valores da empresa/ organização que representam. E isso não é discriminação ou preconceito, nem acontece só no Exército ou em organizações religiosas: o empregador ainda tem o direito de definir o perfil das pessoas que quer associadas à sua marca.


                               

Quem quer aceita; quem toma ao pé da letra a ideia de rebeldia sempre e em toda a parte talvez deva optar por uma carreira que exija menos disciplina.

Em última análise, quem diz que "um enfermeiro não é menos competente por ter tatuagens" provará muito mais essa teoria - e o seu profissionalismo - se for discreto em relação aos seus hobbies/escolhas de estilo pessoais, sendo um enfermeiro exactamente igual aos outros e destacando-se pelo seu desempenho em vez de cultivar uma imagem de enfant terrible.

Um ofício (ao contrário de um "trabalho") é sempre um sacerdócio. E quem quer "vestir a camisola" tem de a vestir com o brio que a profissão exija. Ainda que a camisola tenha mangas compridas que tapem as tatuagens ou se pareça muito com uma bata. Noblesse oblige, o hábito faz o monge, etc, etc...

Monday, March 19, 2018

A nobre arte de... pedir referências antes de se apaixonar, como Cristina da Dinamarca

 Christie Brinkley e Peter Cook

Ontem deparei-me com uma estória rocambolesca de celebridades que me tinha passado ao lado. 

Parece que em 2008, a eterna supermodelo Christie Brinkley (considerada a rapariga ideal no início dos anos 1980 e que não se faz velha nem por nada apesar de já ir nos seus 60 e picos) teve um monumental desgosto com o seu último marido, o arquitecto e alpinista social Peter Cook, que acabou com um longo e escandaloso divórcio em praça pública. Aparentemente eram um casal lindo de morrer, apaixonado e com dois filhos amorosíssimos; mas às escondidas, Peter era um homem sórdido, vicioso sem remédio, com uma fixação por pornografia e por raparigas muito jovens

Peter Cook e a esposa que se seguiu, Suzanne

Quando Christie descobriu que o marido se tinha envolvido com a sua assistente de dezoito anos, tomou a atitude que cabe a qualquer mulher com dois dedos de dignidade e pôs-lhe as malinhas à porta. E o escroque, que não tinha mesmo escrúpulos, agiu como qualquer escroque que se preze: denegriu-a para quem quis ouvir, tentou ficar com a custódia dos filhos mesmo sabendo os lindos comportamentos em que andava metido e não contente com isso - apesar de os advogados que a ex lhe atirou às canelas conseguirem evitar o pior - ainda conseguiu arrancar um par de milhões da fortuna da modelo.




 Ela lá se deu por satisfeita ao livrar-se de tal encosto, em modo "pago para desinfestar a praga" e ele, ainda o divórcio não tinha saído, já estava nos braços da primeira ingénua que conseguiu enganar. Suzanne, uma morena relativamente nova nestas andanças de famosos, ficou tão deslumbrada com a boa figura e carisma de Peter que, sem ao menos olhar às acusações de que o namorado era alvo, sem considerar que se ele fosse assim tão bom não estaria naqueles assados, achou que lhe tinha saído ali a sorte grande. 

E vai de agarrar aquela bela peça com unhas e dentes, de entrar em modo mulher da luta, de se sentar ao lado dele no tribunal, de o apoiar cegamente, muito amiga, muito solícita como todas as desesperadas, a ver se ele a pedia em casamento.




Na sala de audiências, Christie avisou-a mesmo "quando ele a trair a si, eu estarei aqui para a apoiar" mas Suzanne, toda serigaita, ainda foi malcriada e
 gritou-lhe que arranjasse outra cantiga, que o argumento da traição já era velho. Tomou a advertência por coisas de ex ressabiada, mesmo perante provas graves.

O bendito divórcio lá ficou concluido, Christie foi contente e airosa à sua vida e Peter enfim, casou com Suzanne...não tardando a fazer a mesmíssima asneira ou ainda pior (afinal, a nova esposa nem tinha fortuna que ele receasse perder) chegando a envolver-se com mulheres de má vida dentro da própria casa e a filmar a proeza.


Suzanne, claro, ficou de rastos por sua vez, ganhou verguenza na cara e teve o brio de se divorciar, não sem antes pedir repetidas desculpas em público à ex que a tentara avisar- desculpas que Christie graciosamente aceitou... ou por ser mesmo boa pessoa, ou de satisfeita por ver provado que não exagerara uma vírgula.





Isto lembrou-me de outra história curiosa, esta da História inglesa: quando o Rei Henrique VIII perdeu a sua terceira esposa, Jane Seymour, que morreu de parto, ficou devastado. Das suas seis mulheres, ela foi a única a dar-lhe o filho varão que ele tanto desejava e que tinha diplomacia suficiente para lidar com ele. Achando que procurando sozinho não acertava uma, o Rei conformou-se com a ideia de um casamento arranjado e mandou o seu principal ministro, Thomas Cromwell, fazer de Cupido: ordenou-lhe que seleccionasse várias jovens elegíveis da nobreza europeia e enviasse uma embaixada com o pintor da corte, Holbein, para achar a candidata perfeita. 


Cromwell sugeriu a encantadora Cristina da Dinamarca, jovem viúva do Duque de Milão.

 Ora Cristina, que com apenas dezasseis anos tinha tanto de bonita como de esperta, não se deixou deslumbrar pela hipótese de se sentar no Trono inglês: toda a gente sabia que Henrique se tinha divorciado da primeira esposa, mandado decapitar a segunda e sabe Deus qual seria o destino da terceira se não tem morrido antes de o Rei se cansar dela. Não querendo fazer uma desfeita directa ao enviado real, Cristina pensou num subterfúgio: desculpou-se com o facto de estar de luto e posou para o retrato vestida com o balandrau menos atraente e mais largueirão que conseguiu arranjar. 



Não satisfeita em esconder as suas formas, completou a toilette enfiando um toucado nada favorecedor pela cabeça abaixo, sem deixar uma só madeixa de cabelo à vista. Mesmo assim, o truque falhou: o Rei adorou os primeiros esboços do retrato e Cristina teve mesmo de recusar a proposta, alegadamente brincando "eu casaria com o Rei de Inglaterra de bom grado...se tivesse duas cabeças!". E de facto não se enganou: o génio violento do seu pretendente não demoraria a fazer das suas: insatisfeito com a noiva que Cromwell lhe desencantara entretanto, Anna de Cleves, divorciou-se dela e mandou o infeliz ministro-alcoviteiro para o cadafalso.

Se Cristina tem cedido à vaidade e à lisonja e ignorado a má reputação de Henrique, pensando "comigo não vai ser assim"...sabe-se lá o que teria sido dela.



Estas duas historietas, uma recente e outra antiga, provam dois factos úteis: primeiro, é certo que o passado de um cavalheiro, embora deva ser tomado em consideração, nem sempre é determinante per se para avaliar se ele dará um bom marido; os homens tendem a comportar-se de modos muito distintos com mulheres diferentes, a distinguir diversão de amor e a atravessar fases estouvadas da vida que arquivam sem olhar para trás (o comportamento feminino, dizem, tem mais tendência a andar em círculos, enquanto o do homem vai a direito e separa mais as águas).

Há mesmo alguns que são capazes de descartarem uma correnteza de mulheres como se fossem lenços de papel, indiferentes aos sentimentos de todas, insensíveis a lágrimas e a fúrias de fêmea rejeitada, nunca se comprometendo verdadeiramente... apenas para logo a seguir se fixarem numa só com paixão avassaladora e casarem, reformando-se por completo, sendo capazes de morrer ou matar por aquela mulher como se não houvesse mais mulheres ao cimo da Terra. 

Em última análise, os ex são como os tarecos na Feira da ladra: o lixo de umas pode ser o tesouro das outras. Certas pessoas são simplesmente incompatíveis entre si, logo o que está para trás pode não ter peso no futuro.




No entanto, face a rumores alarmantes e a alegações de comportamentos mais... fora do vulgar, é preciso averiguar e, caso seja verdade, ver se esse passado é muito recente mas principalmente, se envolve um historial de traição, vigarice ou violência.

Isto porque se as rapaziadas de solteiro, por muito que sejam terríveis, podem ter remédio, a infidelidade  assenta num princípio de total desrespeito: pela outra parte que alegadamente se ama, pelos seus votos, pela palavra dada. Um D. Juan, solteirão convicto, até pode redimir-se quando encontra o que sempre lhe faltou; mas um traidor é  sempre um traidor, especialmente se tem fama de ser um infiel compulsivo. Pode ter a seu lado a mulher mais perfeita, mais linda, mais atenciosa em todos os aspectos e não lhe faltar nada, que mesmo assim saltará à primeira oportunidade de juntar mais um cromo à sua colecção. O mesmo vale para tendências violentas ou sociopatas.





Segundo, apesar de palavras de ex namorada ou ex mulher (e quem diz palavras, diz aquilo que se sabe de fonte limpa da relação anterior) deverem sempre ser tomadas com desconfiança porque em geral a verdade vem tingida pelo ressentimento ou pelos ciúmes, não é de desprezar o provérbio urbano: "quando um homem diz que a ex é doida, sem assumir qualquer parte de culpa, quase sempre foi ele que deu com ela em doida".

Perante esse género de "avisos" há que considerar duas coisas: a índole da ex e a natureza das acusações dela. 



Se a ex em causa é uma mulher de conduta, meio e ar duvidosos; se a relação entre os dois foi tratada com pouca seriedade desde o início e se ela acusa o ex de bruto e de estúpido, ou de outras coisas triviais, não vale a pena fazer caso. Especialmente se foi ela a rejeitada ou se ficou com alguma pedra no sapato...  Pode realmente dar-se o caso de o rapaz não ser o mais meigo e atencioso dos homens, mas o mais certo é simplesmente ele não ter sido, por motivos óbvios, carinhoso com ela.




Porém, se uma ex que corresponda ao perfil acima descrito acusa o antigo companheiro de infidelidade ou de violência, convém verificar pelo sim, pelo não, fazendo um background check junto de amigos comuns que sejam imparciais, avaliando a pegada digital do moço, etc. Quase sempre essas estórias se sabem- a má reputação corre rápido. O mais certo é ser o ressabiamento feminino a falar e não haver causa para preocupação, especialmente se a criatura tem fama de ser  descontrolada dos nervos, paranóica, mentirosa ou dada ao melodrama; mulheres mal comportadas adoram fazer-se de vítimas. Mas nunca é de ficar descansada, pensando "eu sou tão superior a ela que comigo ele nunca agiria assim". Mais vale prevenir do que ver-se obrigada a ter de dar razão a uma maluca.




Agora, se uma ex respeitável, bem ajustada, sem nada que se lhe aponte e que até tem uma data de pretendentes (ou que já refez a sua vida e anda toda contente) vem avisar de coisas preocupantes, ou fez saber factos graves na altura em que  a separação aconteceu e isso entretanto lhe chegou aos da nova candidata, convém não descartar a hipótese de ela ter razão; uma parte dela até pode tirar certa satisfação em castigar o ex-que-veio-do-inferno (quem nunca?) e a solidariedade feminina ser só parcial, mas frequentemente, onde há fumo há fogo. 

Convém não esquecer que há maus rapazes que têm redenção, mas apenas quando agem por imaturidade ou ainda não encontraram a mulher certa. Esses são felizes excepções. 

Quando a ruindade é de raiz, e é-o amiúde, o único remédio é ler os sinais - venham de onde vierem - e se batem certo, fugir a tempo.

 Afinal, nem é tão estranho como isso dar algum crédito às "referências" do cavalheiro: a maioria das mulheres já teve um ex a quem gostaria de ter carimbado na testa um aviso "senhoras, cuidado que este é artista" para governo das ingénuas que se sigam... 

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